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sexta-feira, 13 de abril de 2018

13.—Reflexões em uma sexta-feira 13



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Parece que até as sextas-feiras 13 estão hoje desprestigiadas como dias de sorte ou de azar. Os golpistas que se apoderaram do Brasil provocam tantas desilusões que tornam quase todos os dias aziagos. Vejamos por exemplo os argumentos para fazer um sistema de saúde elitista: o SUS atual é muito católico e comunista. Antes trazer reflexões brasileiras adito um parágrafo para comentar a semana que termina e outro para comentar a próxima.
Ontem vivi uma gostosa experiência de um retorno à sala de aula. Fazer palestra é
algo que me revitaliza, porém não abranda minha abstinência de sala de aula. A convite da Professora Danila Mendonça, discuti com alunos da Licenciatura do Instituto Federal Goiás, campus Inhumas um texto que escrevera a muito. E... por falar em modelos atômicos! QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Modelos de Átomos N° 3, MAIO 1996 http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc03/ensino.pdf
Na próxima segunda-feira, estarei na Universidade Federal de Santa Maria para a defesa da tese doutoral do Antônio Valmor de Campos (que foi meu orientando no Mestrado) que apresenta no Programa de Pós-Graduação em Geografia e Geociências tese TERRITÓRIO DO MILHO CRIOULO: A PROPRIEDADE INTELECTUAL COLETIVA E O MELHORAMENTO DE SEMENTES COMO ESTRATÉGIA DE REPRODUÇÃO SOCIAL. Tenho o privilégio de ser o co-orientador juntamente a orientadora: Prof.ª Dr.ª Carmen R. Flores Wizniewsky. Vibro no acompanhar o trabalho do Antônio há mais de 10 anos. Nesta terça viajo a Marabá PA para atender convite do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática (PPGECM) para proferir neste dia 18 a primeira aula do mestrado que se inicia na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará UNIFESSPA. Na quinta terei atividades com professores da educação básica da região.
Agora, as prometidas reflexões brasileiras: Em uma semana na qual a mídia nacional e internacional noticiou incessantemente o que está ocorrendo no Brasil, decidi transcrever aqui uma parte daquela que considerei uma das mais lúcidas análises sobre a situação que vive o país. Sua autora é Eliane Brum, escritora gaúcha, repórter e documentarista, cujos artigos, publicados semanalmente no El País, têm se destacado pela qualidade de sua reflexão. O texto completo encontra-se em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/09/politica/1523288070_346855.html.
7 de abril de 2018 é talvez o dia mais triste da história recente. Para Lula, o humano, e para todos os brasileiros. Qualquer pessoa que não teve seus neurônios infectados pelo ódio – e uma das características do ódio é ser burro – é capaz de perceber a gravidade representada por um político que encarnava o projeto de pelo menos duas gerações de brasileiros, um projeto que de forma nenhuma pertencia apenas a ele, ser acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E ser preso por isso sem provas convincentes no momento em que está em primeiro lugar nas pesquisas para a eleição de 2018.
Qualquer brasileiro sério é capaz de perceber o abismo que isso representa para o Brasil. A dureza desse momento não para Lula, mas para o que chamamos “nós”, o que de fato não existe, ou só existe em alguns momentos de síntese.
As panelas batendo com fúria nas janelas dos bairros “nobres” de São Paulo é o som da nossa vergonha como país. A de que as pessoas que tiveram o privilégio de estudar, num Brasil tão desigual, sejam incapazes de compreender a gravidade do momento histórico. Esse ódio mascarado de alegria é o rosto contorcido de uma distorção. Esse ódio mascarado de alegria é obsceno.
Mas estas são as pessoas do alto, as pessoas que podem olhar e interferino mundo sem sair da janelinha. O fato de que batam panelas nos edifícios, em vez de irem às ruas lutar pelo Estado de Direito, num país tomado pelo Cotidiano de Exceção, é a expressão do fracasso do projeto de conciliação que Lula representou na prática, embora não tenha sido este o projeto que muitos que o elegeram acreditavam.
Perdemos muito no 7 de abril de 2018. Perdemos bem mais do que de 7 x 1. A forma como correu o processo de Lula, muito mais rápido do que a maioria, instalou dúvidas sobre a justiça. julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal Federal, votando um caso particular em vez de decidir sobre a prisão após a segunda instância, instalou dúvidas sobre a justiça. A clara cisão do STF durante o julgamento instalou dúvidas sobre a justiça. A rapidez com que Sérgio Moro decretou a prisão instalou dúvidas sobre a justiça.
As instituições fracassaram. Não para os interesses privados de alguns, mas para o que deveriam representar para o conjunto dos brasileiros, o que deveriam ser para além do “sentimento social”. O STF, afogado em vaidades e convertido em palanque, se apequenou (um pouco mais). A maldição do protagonismo sem formação política, uma das mazelas dos dias atuais que atinge também juízes e procuradores, encolheu ainda mais a sensação de justiça. E tudo o que o Brasil não precisava neste momento tão delicado era de mais dúvidas sobre a justiça.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

06.-Uma Sexta-feira Santa temporã



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Não quero parecer da Idade da Pedra, mesmo que tenha sido alfabetizado em uma lousa, mas sou do tempo em que na Sexta-feira Santa não se cantava ou assovia e nem se escutava rádio (e as emissoras apresentavam apenas músicas sacras), não se varria a casa e não se ordenhavam as vacas. Usar martelo (instrumento que os ‘pérfidos judeus’, como se cantava – antes do Concílio Vaticano 2 – na liturgia de trevas, usaram para pregar Jesus na cruz) nem pensar. Na Sexta-feira Santa não se podia pentear o cabelo. Imagino o drama das Rapunzéis. Outra restrição, realmente dolorosa: todas as palmadas devidas pelas crianças por traquinagens ficavam na poupança para o sábado. Então, não eram apenas os Judas que eram malhados, as crianças recebiam os atrasados acumulados no dia anterior. Quando um dia era feio, se dizia que tinha cara de sexta-feira santa.
Meus leitores me absolvam. 
Pela primeira vez em mais de doze anos de blogares confesso que não tenho condições redigir uma edição como me propusera escrever. Hoje é dia que tem ressaibo de Sexta-feira Santa.
Sim a História tem ‘mais juízo’ que o vingativo e fundamentalista juiz Moro. Este moveu caça a um retirante nordestino que ousou sobreviver, e que entre muitas realizações pôs comida na mesa de mais de 40 milhões. O que faz essa sexta-feira funérea não é apenas o que se faz contra o Lula e sim a constatação do quanto a justiça é injusta
Dois exemplos: As declarações de dois ministros dos 5 X 6 político (e sem justiça): uma Rosa Weber (no destaque) de Gilmar Mendes: “Em Portugal, afirmou que a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é "absurda" e que o País vive "despotismo judicial"; "Estamos vivendo uma Prokuratura", declarou; Gilmar foi um dos ministros que votaram a favor do habeas corpus preventivo do ex-presidente na última quarta-feira; Sergio Moro determinou a prisão de Lula de forma ilegal, antes da conclusão dos embargos na segunda instância(https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/350170/Gilmar-Mendes-prisão-de-Lula-é-absurda.htm)
Substituo o meu texto por uma de muitas charges que inundam a internet. A elas adito o print que um ex-aluno do Prof. Guy Barros Barcellos enviou.
Desejo a cada uma e cada um dos meus leitores –- aos que amargam uma Sexta-feira Santa ou aos insanos imersos em folias carnavalescas –- um fim de semana no qual se possa pensar como a democracia está sendo vilipendiada no Brasil.

sexta-feira, 30 de março de 2018

30.-Para (quase) despedir março


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Esta é a última das quatro edições de março2018. A primeira teve a marca de Nilópolis e Rio de Janeiro. Na segunda o ser de Manaus foi obliterado pelo luto por Marieli. Na terceira as emoções vieram de Igrejinha/RS e Inhumas/GO. Esta quarta por semelhança geográfica: Codó/MA.
Restringir a uma cidade maranhense que acessei a partir de Teresina PI é muito pouco. É meu parceiro neste blogada Prof. Dr. Licurgo Peixoto de Brito da UFPA e da REAMEC. A convite do Licurgo, viajei na última segunda-feira à Codó. A motivo da viagem era participar da defesa de tese doutoral de seu orientando Deusivaldo Aguiar dos Santos a ser realizada no IFMA Codó-MA, instituição locus da pesquisa. Neste caso a situação é peculiar pela distância física entre a instituição pesquisada e a IES formadora (770 km por rodovia). Essa situação não é usual na academia.
Eis o que diz o Licurgo: “tenho desenvolvido a prática de realizar defesas de teses ou de dissertações em escolas que foram alvo da investigação. A intenção é estimular um processo de retorno de resultados à instituição pesquisada. Certamente, muitas vezes já ouvimos comentários como ‘a nossa escola colaborou com a pesquisa, forneceu informações, abriu as portas para a universidade e depois da pesquisa concluída eles nem mandaram uma cópia da tese para termos na biblioteca’. Eu ouvi discursos deste tipo várias vezes. Com a motivação de não cair nessa omissão, passei a considerar a possibilidade de realizar defesas nas escolas que contribuíram como locus de pesquisa.
Não faltarão leitores que dirão: isso não é inédito. Realmente, não é. Essa é uma salutar prática que vem crescendo na Universidade brasileira. 
O Licurgo a amplia. A Banca Examinadora foi composta por Licurgo (orientador); Amparo Vilches Peña (coorientadora - Universidad de Valencia /Espanha); Membros internos Ana Cristina Pimentel Carneiro de Almeida e Jose Jeronimo de Alencar Alves; Raimundo Luna Neres (UNICEUMA) e Attico Chassot (Reamec).  Algo inédito também foi a realização de uma defesa de doutorado com quase uma centena de assistentes, Já vi muitas com menos de meia dúzia de assistentes.
Na oportunidade de estarmos no IFMA Codó nos propusemos a fazer palestras docentes e discentes do Instituto Federal.
Assim, na segunda e na terça, auditório com a capacidade de 150 lugares e cerca de lugares e pelo menos 50 pessoas em pé. O Prof. Jerônimo Alves discorreu sobre “Estudos Culturais e inserção do cientificismo com o processo modernizador e o Prof. Licurgo de “Abordagens Temáticas para o Ensino de Ciências” com a participação do prof. José Alexandre da Silva Valente. Essas falas ocorreram na noite do dia 26 de março, já que os cursos de licenciatura em Química, Matemática, Ciências Agrárias e Biologia funcionam em período noturno. 
Assim, na segunda e na terça, no auditório com a capacidade de 150 lugares e cerca de lugares e pelo menos 50 pessoas em pé, o Prof. Jerônimo Alves discorreu sobre “Estudos Culturais e inserção do cientificismo com o processo modernizador e o Prof. Licurgo de “Abordagens Temáticas para o Ensino de Ciências” com a participação do prof. José Alexandre da Silva Valente. Essas falas ocorreram na noite do dia 26 de março, já que os cursos de licenciatura em Química, Matemática, Ciências Agrárias e Biologia funcionam em período noturno. 
Adicionar legenda
No noite de terça, 27 eu fiz, para cerca de 200 pessoas, a palestra “A ciência como instrumento de leitura para explicar as transformações da natureza”.
Na manhã de quarta, mais uma vez o auditório estava lotado para a defesa da tese Ensino com abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente em uma escola de origem agrotécnica. Não é uma situação trivial para o doutorando expor e ouvir críticas ante seus pares e alunos.
Assim, no IFMA Campus Codó não houve apenas uma defesa de tese –- novidade para talvez uma centena de licenciados: houve um ciclo de palestras e outras atividades que envolveram especialmente os professores. Valeu ter estado em Codó. Eu sou grato e a todos que se envolveram para que pudesse participar. Personifico minha gratidão ao Sr. Cícero, o Nego Onça, que me conduziu 2 x 170 quilômetros e com habilidades me ensejou puder antecipar em 12 horas o meu regresso Codó/Teresina/Brasília/Porto Alegre. Que o plenilúnio que marca esta Sexta-Feira (ainda) Santa amealhe as melhores evocações quando neste capicuo 30:03 na conjugação este ano da Páscoa judaica e a cristão.

sexta-feira, 23 de março de 2018

23.-As primícias outonais




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O outono de 2018 começou nesta terça-feira... Para alguns poucos leitores desse blogue, que vivem no Hemisfério Norte, começou então a primavera. O outono na região do paralelo 30 do Hemisfério Sul (onde eu moro) é talvez a mais bonita ou a mais saborosa quanto ao clima. Difere da primavera, pois usualmente não há ventos, como aqueles ditos ‘ventos de finados’.
Se diz que é a estação da maturação dos frutos e muitas árvores e arbustos, transmutam–- já em preparação do inverno –- a folhagem verde em um lindo amarelo dourado. Não é sem razão que em inglês outono é também conhecido por fall.
Fiz título desta edição uma palavra que não pertence ao nosso falar cotidiano: Primícias. Uma palavra usada usualmente no plural e está associada ao outono, pois está assim dicionarizada conjunto dos primeiros produtos da terra ou de um rebanho (Priberam). Mesmo que tenha colhido na terça-feira saborosas goiabas, aposso-me metaforicamente para narrar aqui duas primícias. Uma ocorreu na terça e outra na quinta-feira.
Na chuviscosa manhã de terça-feira fui de ônibus a Igrejinha RS, na mesorregião Metropolitana de Porto Alegre e na microrregião de Gramado-Canela, mais precisamente no Vale do Paranhana, a cerca de 82 km de Porto Alegre. O município, um dos maiores produtores de calçados femininos do Brasil tem cerca de 35 mil habitantes.
Colonizado por imigrantes alemães durante o século 19, ainda hoje possui população predominantemente de origem alemã. O nome do município se deve a uma pequena igreja construída pelos imigrantes em 1863. Para celebrar as tradições de seus antepassados a cidade criou a Oktoberfest de Igrejinha.
Meu destino em Igrejinha era a pequena Escola Municipal Dom Pedro II, em Solitária Alta na região colonial do município. A agenda era extensa (três turnos) e desafiadora.
O primeiro desafio foi no turno da manhã. Tentar responder para quase meia centena de alunas e alunos do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental: “O que é Ciência, afinal? Ao comparamos Ciência e Religião a carta de Richard Dawkins a sua filha Juliete foi destaque. Confirmou-se, já no primeiro aquilo que sempre tenho dito: ‘é mais complexo, é mais difícil dar aula no ensino fundamental do que ser professor na pós-graduação. Motivado por um painel à entrada da escola, palestra foi dedicada à Marielle, referida como exemplo para as nossas lutas em busca de um Planeta com menos desigualdades.
Curtindo o sucesso da primeira fala, aplaudida extensamente, cumpri aquela que seria a meu juízo atividade mais significativa, mas também mais complexa: visitei quatro grupos: o primeiro era formado por alunos do terceiro ano ensino fundamental; o segundo grupo foi para alunos de quarta e quinta série reunidos; a terceira visita foi para alunos de segundo ano; e a quarta foi para alunos da Educação Infantil e do primeiro ano. Se na tarde de terça tivesse que dar uma palestra em um doutorado não teria tanta dificuldade como tive para fazer essas quatro visitas; todas elas muito diferentes e todas elas muito a meu gosto.
A última atividade nesses três turnos em Igrejinha foram duas falas para 12 dos 15 professores da escola começamos às 18 horas e terminamos depois das 21 horas com 10 minutos de intervalo. Foi uma atividade muito produtiva e muito rica. Na primeira fala falei acerca da (não) intersecção dos saberes acadêmicos / saberes escolares / saberes primevos. Na segunda parte ensaiamos possibilidade de práticas de pesquisas com os alunos tendo como problema (genérico): Como preservar saberes primevos e fazer deles saberes escolares?
Recebi de presente da escola uma linda cesta com produtos coloniais e artesanais da região acompanhada de muito carinho de alunos e professores. Foi um 20 de março de 2018/
Falta uma pergunta: Por que uma escolinha rural na beira da estrada? Minha filha Clarissa e meu genro Carlos são lindeiros com a escola e minhas netas Maria Clara e Carolina são desde agosto alunas da escola. Não se precisa dizer mais nada.
 As primícias da noite de quinta-feira não foram menos emocionantes que as terça-feira em Igrejinha. Em novembro fora convidado para atividades no Instituto Federal Goiás no campus Inhumas. Estabeleci relações com vários colegas. Este ano a Professora Danila Mendonça –- titular da disciplina Instrumentação para o Ensino de Química I –- me escreveu solicitando sugestões e/ou alternativas para trabalhar com um grupo de licenciandos em Química do 5º semestre.
Depois de algumas trocas de WhatsApp acolhemos a proposta, que já realizara com outros grupos. Os alunos leriam e discutiriam em aula o capítulo Diálogo de aprendentes (ver referência*) no qual faço transgrido as fronteiras da ficção e da realidade fazendo uma assamblage** de uma maneira usual muito apreciada pelos leitores.
No terceiro encontro sobre o mesmo texto eu compareci, via teleaula à sala de aulas com os alunos e a professora. Os estudantes trouxeram quase uma dezena de questões. Cada uma dela catalisou uma microaula que se prestou a muitas interrogações. Foram quase duas horas muito enriquecedoras.
Dois pontos fora do script: #1) A professora Priscila, que na mesma hora teria aula de Cálculo com outro grupo, trouxe cerca de duas dezenas de alunos que foram ouvintes muito significativos. #2) Tivemos problemas técnicos e só conseguimos ter áudio num não muito ortodoxo acoplamento de um notebook e smarthfone.  
* CHASSOT, Attico. Dialogo de aprendentes, in MALDANER, Otavio Aloisio (Organizador); SANTOS, Wildson Luiz Pereira dos (Organizador). p. 23-50 Ijuí: Ensino de Química em Foco Editora Unijuí, 2010, 368 p. ISBN 978-85-7429-888-7
** vinho formado pela reunião controlada de dois ou mais varietais em proporções estudadas. Assim, por exemplo, cabernet sauvignon + merlot poderiam formar uma assemblage (o substantivo é feminino, numa evocação à assembleia), ou tanat + pinot noir, outra.
Mas a semana teve tristezas: faleceu a Prof. Dra. Ierecê na madrugada do dia 21.03.2018, uma muito querida colega da Reamec e da Universidade Estadual do Amazonas.
Ela deixou seu epitáfio: "Às vezes somos como a Fênix. Entramos em autocombustão. Morremos. Mas depois renascendo das cinzas. Como a Fênix, carregamos carga muito pesada para uma única existência. Temos que nos dar a chance de outra..." Ierecê dos Santos Barbosa


sexta-feira, 16 de março de 2018

16.- Os sinos dobram por Marielli Franco


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3346


Escrevo de Manaus, onde cheguei nesta terça-feira, 13 de março e que deixo nesta tarde de sexta. Não vou falar destes dias manauaras. Não vou narrar o quanto prelibo as atividades que terei, na semana que vai iniciar Igrejinha RS e em Inhumas GO.
Lembro do poeta lusitano maior: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.” A tristeza e o luto redirecionam este blogar.
Nesta quinta-feira, iniciei uma fala para cerca de 200 pessoas UFAM dizendo que dedicava a minha fala a Marielli Franco, assassinada à véspera. E é para ela esta edição tintada de luto e de dor.
Aproprio-me de texto de José Roberto de Toledo, publicado na revista Piauí* para curtir com os leitores deste blogue a indignação e a dor que se entranha em todos   que aspiram neste pobre Brasil o respeito aos direitos humanos e à restauração da democracia.
Os bares de Copacabana e da Zona Sul do Rio de Janeiro estavam lotados de torcedores que acompanhavam, pela tevê, a virada do Flamengo sobre o Emelec na Taça Libertadores. Também nas redes sociais o time carioca provava-se popular liderando o Twitter Trends Brasil na noite de quarta-feira. Em meio aos milhares de tuítes sobre os jogadores que decidiram a partida, um nome que nada tinha a ver com o jogo começou a subir no ranking de assuntos do momento: Marielle Franco. Aos poucos, o drama futebolístico dava lugar a uma tragédia emblemática.
Líder em uma das maiores comunidades pobres do Rio – a Maré, um aglomerado de 16 favelas espremidas entre a Linha Vermelha e a avenida Brasil onde moram 130 mil pessoas –, Marielle foi a quinta mais votada entre os 51 vereadores eleitos na cidade em 2016. Recebeu 46,5 mil votos logo na primeira eleição que disputou. Usava o mandato para denunciar a violência policial e para cuidar dos interesses e preocupações de mulheres negras como ela. Eleita pelo PSOL, a socióloga pós-graduada em administração pública acabara de ser nomeada relatora da comissão da Câmara Municipal que deveria fiscalizar a intervenção militar na segurança do estado do Rio. Não teve chance de cumprir a missão.
Por volta das 21h30, enquanto o Flamengo entrava em campo no Equador, o Chevrolet Agile quatro portas branco em que Marielle estava foi alcançado por outro veículo na esquina das ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, no bairro do Estácio, perto do Centro da cidade. Foram pelo menos nove disparos. Oito projéteis atravessaram o vidro da porta traseira direita, bem no local onde Marielle estava sentada. O nono perfurou a lataria. Quatro atingiram a cabeça da vereadora. Marielle morreu aos 38 anos. Faria 39 em julho.
As balas traçaram uma diagonal dentro do Agile e três delas acabaram alcançando e matando o motorista do carro, Anderson Pedro Gomes. A trajetória que percorreram sugere que o atirador estava ao lado direito e atrás do Agile. Se Marielle estivesse no centro do mostrador de um relógio, o ponteiro indicaria que o assassino ficou entre as marcas das quatro e das cinco horas. Não é a posição de quem anuncia um assalto, talvez a de alguém que planeja uma execução. Nada foi roubado. O ângulo e a precisão dos disparos pouparam a assessora que viajava no banco do carona, à frente de Marielle.
Antes que a tevê noticiasse o atentado à vida da vereadora e de seus acompanhantes, múltiplos polegares se encarregaram de espalhar a história do crime por meio do WhatsApp. De lá, a notícia multiplicou-se pelo Twitter e pelo Facebook. À meia-noite e meia, “marielle franco vereadora” já era líder das “Tendências do Momento” do Google no Rio de Janeiro. A essa altura, nada provocava mais interesse entre internautas cariocas do que a morte da favelada negra que transformara a militância católica da adolescência em mandato eletivo por um partido socialista na meia-idade.
Grávida aos 18 anos, Marielle contou à Revista Subjetiva dez meses atrás que teve que interromper os estudos para cuidar da filha.Concluíra o ensino médio no turno da noite de uma escola pública, o Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, e pretendia cursar uma faculdade. Matriculou-se em um curso pré-vestibular, mas a gravidez inesperada mudou seus planos. Era 1997, e ela estava numa fase de “fugir da igreja pra ir pro baile” – conforme disse na entrevista. Engravidou. Com o apoio da mãe mas sem o do pai da criança, Marielle tratou de dedicar-se à filha. Só pode retomar os estudos anos depois. Conseguiu entrar no curso de ciências sociais da PUC do Rio em 2002. Recebeu bolsa de estudos integral da universidade.
Já na madrugada desta quinta-feira, a morte da vereadora extravasou das mídias sociais para a mídia internacional. Correspondentes estrangeiros baseados no Rio de Janeiro publicaram notícias sobre o crime em inglês, espanhol e outros idiomas. A morte de Marielle deu no New York Times. Atos de homenagem e de protesto foram marcados pela internet para esta quinta-feira.
Com o assassinato monopolizando o noticiário e ameaçando a popularidade da intervenção militar no Rio, políticos e governantes se apressaram em lamentar a morte da vereadora do PSOL, decretar luto oficial e prometer a solução do crime. As circunstâncias indicam um homicídio premeditado: o atirador sabia exatamente onde mirar para atingir Marielle, apesar de os vidros do Agile estarem fechados e serem escurecidos por uma película colante. Isso sugere que o carro onde estava o atirador seguiu o da vereadora talvez desde a Lapa, onde ela embarcara após participar de um evento com outras mulheres.
Porém, não há registro de que Marielle viesse sofrendo ameaças. Seus companheiros de partido fizeram questão de repetir isso em entrevistas ao longo da noite, argumentando que se ela tivesse sido ameaçada o PSOL teria denunciado, como forma de proteção. Qual teria sido, então, a motivação dos assassinos? Por ora, não há respostas, só especulações. Quatro dias antes de ser morta, a vereadora denunciara o assassinato de dois jovens em Acari, na Zona Norte do Rio. Em post no Facebook, afirmou que o batalhão da Polícia Militarque atua na região é conhecido como “batalhão da morte”. Pode ser uma pista, mas não é uma prova.
Denunciar a morte violenta de seus pares foi o que levou Marielle à política. Em 2005, uma amiga sua foi vítima de “bala perdida” durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. O engajamento em campanhas contra a violência policial em favelas aproximou-a de um ex-professor de História seu, do curso pré-vestibular. Em 2006, Marielle fez campanha para Marcelo Freixo, do PSOL. Eleito deputado estadual, o professor nomeou a ex-aluna para assessorá-lo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Após dez anos de trabalho como assessora parlamentar, Marielle elegeu-se em 2016 para seu primeiro e último cargo eletivo. O sucesso logo de cara predizia uma carreira política longeva. Quatro balas anularam a previsão. Mas não seu legado: foram quatorze meses como vereadora, dezenove anos como mãe, e quase quatro décadas como voz inconformada contra a violência à sua volta.
* http://piaui.folha.uol.com.br/colaborador/jose-roberto-de-toledo/
* http://piaui.folha.uol.com.br/colabor